Sete segredos poderosos escondidos nos mísseis Tomahawk

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Os Estados Unidos dispararam no dia 06 de Abril 59 mísseis sobre uma base aérea da Síria. Os artefatos usados foram da classe Tomahawks, um míssil cruzeiro-supersônico com difícil detecção. Quais segredos este míssil pode esconder? O que podemos aprender estudando a história dele e de sua produtora? Perguntas que tentarei responder.

O BGM-109 Tomahawk é um míssil produzido pela empresa americana Raytheon e custa US$ 1,35 milhão de acordo com a última compra feita em 2015 pelo governo americano. O TLAM é resultado de uma evolução na engenharia de defesa aérea dos Estados Unidos jamais vista em outras país. Sua história é recheada de curiosidade e desafios que resumidamente tentarei condensá-las nestes sete segredos.Este míssil é uma arma estratégica que pesa 1600 kg sendo 450 kg de explosivos e seu comprimento chega a mais de 5,5 metros. Ele é capaz de acertar alvos de quase 2,5 mil quilômetros de distância com uma precisão de seis metros, após viajar em velocidade supersônica de 900 km/h orientado por sistemas de GPS e Radar.

PRIMEIRO SEGREDO – O governo queria uma bomba voadora, os empreendedores queriam legados;

O conselho de aviação do exército americano procurou Charles Kettering durante a primeira guerra mundial, solicitando-o que criasse uma “bomba voadora” para atingir um alvo a 64 quilômetros de distância. Charles era inventor, já havia criado algumas coisas bem úteis como: um precursor do que hoje é o cartão de crédito, a caixa registradora elétrica para supermercados e o motor de arranque para os carros (antes era na manivela). Ele sempre dizia: “eu não fico muito com inventores e executivos, eu vivo com a turma de vendas, eles sabem o que as pessoas querem”. Em 1909, Kettering  criou a Delco juntamente com outro inventor americano o Edward Andrew Deeds para desenvolver uma série de inovações na indústria automotiva como o sistema de ignição de carros utilizando baterias. Kettering e Deeds trabalhavam juntos desde a NRC (National Cash Register Company), empresa de John Henry Patterson o criador da primeira escola de treinamento de vendas do mundo. Para se ter uma ideia da importância dessa empresa, segundo os historiadores ter experiência na NRC equivalia a um MBA. A Delco dava lucro fabricando motores de ignição e isto possibilitou a dupla Kettering e Deeds investirem dinheiro numa nova empresa produtora de aeronaves a Dayton-Wright Company junto com um dos irmão Wright isso em 1917. bugE com a ajuda do inventor Elmer Ambrose Sperry, a “bomba voadora” solicitada pelo exército americano foi criada com um sistema de controle e orientação. Era o primeiro míssil da história. Feita com motor Ford de US$ 40, voando 80 km/h, 4 metros de comprimento, fuselagem de madeira mais papel-mâché e asas de papelão. O “Bug” como foi conhecido custava US$ 400,00, pesava 240 kg sendo 82 de explosivos e voou pela primeira vez em 2 de outubro de 1918, sabe-se que num espaço de três anos o governo americano gastou US$ 275 mil com a invenção, mas nunca fora usado em batalhas.

SEGUNDO SEGREDO – A Raytheon nasceu da combinação das habilidades de quatro gênios;

Em 1918 no fim da primeira guerra mundial um aluno de Harvard, C.G.Smith, se candidatou a um projeto de pesquisa do professor Theodore Lyman. O projeto consistia em resolver um empasse que havia entre dois famosos astrônomos E.C.Pickering e Niels Bohr envolvendo a ionização e o gás hélio. Após resolver o impasse Smith descobriu uma aplicação do hélio para aparelhos de rádio domésticos. Trocando a alimentação via bateria para corrente elétrica já em expansão nos Estados Unidos. Financiado a princípio por J.P. Morgan e mais tarde pelo sobrinho de John Rockefeller, Smith juntamente com Vannevar Bush engenheiro elétrico do MIT e Laurence Marshall engenheiro Civil criaram em 1922 a American Appliance Company.Raytheon B copy A empresa comandada pelo trio produzia o Tubo-S que era um tubo gasoso retificador que transformava corrente alternada em corrente contínua. Marshall contratou Percy Spencer autodidata e um gênio que entendia os trabalhos com tubos de vidros. Em meados de 1930 Vannevar Bush foi lecionar no MIT de onde mais tarde se tornaria presidente do Comitê de Pesquisa da Defesa Nacional (NDRC). E a condução da empresa agora chamada Raytheon (Ray “um raio de luz” em francês e theon ” de deus” em grego) estava por conta de Marshall e Percy que se consolidaram no negócio de tubos retificadores para rádios.

TERCEIRO SEGREDO – A tecnologia do Radar foi um desafio para vários países e em circunstâncias diferentes; 

Em 1897 um físico russo chamado Alexander Popov estava no Mar Báltico testando um aparelho transmissor de mensagem via ondas de rádio entre dois navios. No momento do experimento um terceiro navio passou entre eles e cortou o sinal, daí o físico colocou em seu relatório que isso poderia ser útil para detectar objetos. Na Alemanha em 1900 um jovem chamado Christian Hulsmeyer leu uma descoberta de seu compatriota Heinrich Hertz sobre a reflexão de ondas eletromagnéticas sobre superfície metálicas. Hulsmeyer criou o telemobiloscope, um aparelho preventivo contra a colisão de navios. Em 1915,o escocês Robert Watson-watt usou a tecnologia de rádio para fornecer aviso prévio aos aviadores, transformando o Reino Unido no ano de 1920 num centro avançado de radiogoniometria. Em 1932 os alemães instalaram um sistema de radionavegação no aeroporto de Berlim chamado feixe de Lorenz, caracterizado como um sistema de radar de uma maneira rústica. Na segunda guerra mundial os alemães utilizaram esta tecnologia para bombardear noturnamente os ingleses e o físico inglês Reginald Victor Jones, integrado a inteligência militar britânica por Winston Churchil, detectou a artimanha germânica. Daí os ingleses começaram a emitir sinais de radionavegação para confundir os alemães em suas incursões, isso foi conhecido como a Batalha das Vigas.

QUARTO SEGREDO – Ingleses e Americanos precisaram se unir para desenvolverem um radar eficaz – Missão Tizard;

Em agosto de 1940 uma comissão Britânica de cientistas e militares é enviada por Winston Churchill aos Estados Unidos em meio a segunda guerra mundial com o objetivo de obter recursos industriais para impulsionar o radar. Eles se encontram com um cientista e magnata dos negócios o americano Alfred Loomis que os levaram ao laboratório de radiação do MIT. Liderados por Henry Tizard os ingleses revelam que possuíam uma fonte poderosa para emitir microondas na potência de 10 mil Watts, mas estavam com dificuldades técnicas para produzir o aparelho com o tempo necessário. Então o chefe do laboratório Ed Bowles indicou o trabalho em vidro que a Raytheon desenvolvia ao que foram apresentados a Laurence Marshall e Percy Spencer. Spencer pediu para ficar uma semana com aquele aparelho e no final ele desenvolveu uma estrutura mais convencional de produzir utilizando o vidro. Diante desses grande feito a Raytheon ganhou visibilidade junto ao governo que o incluiu na lista de empresas com capacidades técnicas para instrumentalizar o sistema de defesa nacional.

QUINTO SEGREDO – As produções militares e aeronáuticas desencadearam uma onde de fusões pelos Estados Unidos;

Após a fabricação da “bomba voadora” a Dayton-Whight Company foi comprada pela General Motors que em seguida encerraria as atividades da Dayton-Whight. Um sujeito chamado Reuben Fleet adquiriu os antigos projetos Dayton-Whight da GM e juntou com outros projetos da também recém-comprada por ele, a Gallaudet Aircraft Company e criou a Consolidated Aircraft Corporation em 1923. Esta empresa construiu uma série de aeronaves, algumas chegaram a ser utilizadas pelos Aliados na segunda guerra mundial. Sediada em San Diego, a Consolidated chegou empregar 45 mil funcionários até que em 1941 a AVCO (Avco Corporation) veio comprar 34% de seu capital. Esta aquisição provocou a fusão com a Vultee Aircraft nascendo assim a Convair. A Convair se especializou em pesquisar e desenvolver  produtos aéreos em sua fábrica em San Diego, Califórnia. A Convair firmou sua presença entre as quatro maiores do país como a Douglas Aircraft, Boeing e Lockheed. Em 16 de Janeiro de 1951 a Convair recebeu do governo um contrato para desenvolver o chamado MX-1593, o começo da bomba atômica vindo a ser concluída em 1953. A equipe da Convair foi liderada pelo Belga Karel Bossart que convenceu a Força Aérea Americana da possibilidade de desenvolver um míssil com alcance de 8.000 quilômetros. Os trabalhos do Bossart serviram de base para lançamento de foguetes e desenvolvimento de mísseis e isto o levou a altos cargos na agora General Dynamics Corporation (GD), dona da Convair desde 1953. A GD era um conglomerado de empresas militares e a Convair se tornou um setor da Dynamics localizado em San Diego e sua fábrica no Fort Worth, Texas. Até que em 1992 a General Dynamics entrou num processo de desinvestimento e as unidades da Convair foram diluídas em vário setores e a unidade de mísseis foi vendida a Hughes Aircraft subsidiária da General Motors e os setores da Convair restante foram simplesmente fechados.

SEXTO SEGREDO – O forno microondas e a ogiva nuclear tem algo em comum;

Percy Spencer quando estava desenvolvendo os trabalhos para os britânicos percebeu que o chocolate que estava na sua calça derretia. Pesquisando a questão percebeu que isto acontecia devido ao aparelho que os britânicos haviam lhe confiado por uma semana. Assim desenvolveu o forno microondas com o objetivo de esquentar alimentos no dia-a-dia. No pós guerra a Raytheon começou a atuar em várias frentes não somente com componentes eletrônicos, mas aparelhos domésticos, Refrigeradores, publicações educacionais e claro desenvolvendo mísseis guiáveis e sistema de radares. Em 1967, a Raytheon dominava o mercado de forno microondas domésticos nos EUA, no setor de transistores era sufocada por grandes players como General Eletric e Continental Eletronics. Quando em 1991 o míssil Patriot fabricado pela Raytheon recebeu grande exposição mundial ao ser lançado na Guerra do Golfo. Em 1997 a Raytheon adquire a Hughes Aircraft da GM, unidade especializada em misseis bem como outras pequenas empresas do setor de eletrônica. Após a fusão com a Hughes a Raytheon se estruturou em cinco unidades de negócio são elas: Sistemas de Defesa (mísseis), Sensores e Sistemas Eletrônicos, Sistemas C3 (comando, controle e comunicações), Sistemas de Inteligência, Sistemas de Informação e Integração de Aeronaves e Treinamento e Serviços. Hoje a Raytheon é focada no setor de defesa aeroespacial dos Estados Unidos.

SÉTIMO SEGREDO – O Tomahawk é um robô assassino determinado;

O Tomahawk (TLAM) foi originalmente implantado pela Marinha dos EUA em 1983 como uma arma convencional e nuclear. O projeto de Tomahawk foi concedido sob a liderança de James H. Walker que projetou e construiu este novo míssil de longo alcance. A última geração de Tomahawk tem a possibilidade de ser redirecionado em pleno voo através de comunicações via satélite e permanecendo em torno de seu alvo até o momento certo. Isto faz com que um lançamento de múltiplos, os misseis  permaneçam ao alto e em seguida façam o ataque em conjunto para causar o máximo impacto, por exemplo. O TLAM como é conhecido foi uma maravilha da autonomia na década de 1980. As primeiras versões do míssil usava um sistema interno de mapas digitalizados que o guiava num caminho programado até o alvo, bem diferente da “bomba voadora” de Kettering, onde era preciso contar o giro do motor ford para programar o momento exato da colisão. Voando perto do solo, o míssil TLAM usa seu próprio radar para verificar o terreno por ele percorrido e depois compará-lo com um mapa criado a partir de dados de satélite com o intuito de corrigir sua rota. A Marinha e a Raytheon a fabricante do Tomahawk, têm expandido ainda mais o repertório do TLAM, ao ponto de capacitá-lo a buscar alvos móveis e localizar navios.

Conclusão

A Raytheon possivelmente terá vendas maiores do que o esperado este ano algo em torno de US$ 30 bilhões. Uma das suas maiores exportações é o sistema de mísseis Patriot, míssil usado ​​para proteção de fronteira. Assim, Raytheon se beneficiará do aumento dos gastos internacionais e dos EUA caso as investidas do Presidente Donald Trump permaneçam. Em resumo, os misseis Tomahawks farão em 2018 seus centenários em relação ao dia em que aqueles homens do governo sonharam com uma “Bomba Voadora”.

Daniel Júnior

Editor do De Zero a Tudo

 

 

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