O negócio da carne no Brasil

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Você sabia que o primeiro frigorífico de grande porte no Brasil foi criado em 1910 na cidade de Barretos denominado Cia. Frigorífica e Pastoril de Barretos?

No começo de tudo…

Anos depois apareceram outros três frigoríficos grandes, mas agora com capital estrangeiro são eles: Continental Products Company (controlado pelo grupo Schwartzchild & Sulzberger de Chicago que depois fora comprado pelo Wilson & Co.); Frigorífico Anglo-Brazilian Meat Co que teve vida curta e finalmente o terceiro frigorífico o Brazilian Meat Co. que pertencia a família Vestey que ficou conhecido como Frigorífico Anglo sediado na cidade de Mendes (RJ) iniciando suas operações em 1917. downloadEm 1930 cerca de 95% da capacidade nacional de abate e processamento bovino e 87% da de suíno e ovino estava nas mãos de quatro empresas estrangeiras sendo elas: Frigorífico Anglo, Wilson & Co, Frigorífico da Swift e Frigorífico da Armour.

Uma nova onda…

A partir de 1930 o governo brasileiro começou a utilizar o cooperativismo como ferramenta de intervenção na economia agrária e urbana. Portanto o sistema que até a década de 30 era apenas para venda de produtos e abastecimento para grandes centros urbanos como a Cooperativa Rural Brasileira fundada em 1906 passou a ser um instrumento governamental. Por volta da década de 30 duas famílias de origem italiana estava tocando um pequeno negócio no oeste catarinense. Era a Ponzoni, Brandalize & Cia que trabalhava com abatedouro suíno, moinho de trigo, secos e molhados e pequenas agriculturas, este empreendimento nasceu da união destas duas famílias que já possuíam negócios separadamente quando se estabelecera na região do Vale do rio do Peixe. Em 1939 os italianos se unem com os alemães Frey & Kellermann formando a Sociedade de Banha Catarinense Ltda e nesta nova sociedade os italianos eram responsáveis pela comercialização e os alemães pela produção.

Mas a Ponzoni, Brandalize & Cia continuou a existir tanto que em 1942 durante a primeira festa da Uva de Santa Catarina, realizada em Perdizes os italianos apresentam a Perdigão. E não muito distante dali na pequena cidade catarinense de Concórdia outro descendente de italiano Atillio Fontana estava aumentando em mais de 50% de sua posição na S.A. Indústria e Comércio de Concórdia que em 1944 se tornou a Sadia. Um certo prefeito de uma cidade catarinense de 2 mil habitantes se encontra com o Presidente Juscelino Kubitschek em 1956 com uma proposta de criar um frigorífico para gerar emprego na localidade. O nome da cidade é Seara e o prefeito é Aurélio Paludo um dos irmãos Paludos que liderou a criação da Seara S.A cujo projeto envolvia 220 agricultores e a soma de 15 milhões de cruzeiros. Enquanto isso Brasília estava a todo vapor com pessoas de todos os cantos do Brasil desembarcando no Planalto Central e um mineiro de Alfenas abatia o gado no meio do cerrado e vendia a carne na nova sede nacional. José Batista Sobrinho abriu em 1953 uma Casa de Carne Mineira juntamente com o seu irmão, assim nasceu a JBS, iniciais de seu nome.

Nossa realidade…

Hoje mais de meio século depois vemos a JBS maior processadora de carnes do mundo dona da Seara com um faturamento de R$ 170 bilhões por ano. E em segundo lugar a Brasil Foods união entre Perdigão e Sadia com um faturamento de R$ 33 bilhões por ano. Nos perguntamos: o que faz esses grandes players modernos serem diferentes daqueles pioneiros do passado? Qual modelo de negócio adotado que trouxe a prosperidade a essas empresas e não a outras? A onda de corrupção no Brasil deveria ser capaz de manchar a história dos fundadores dessas companhias a ponto de esquecermos suas obras? Não, acho que não. Farei a seguir uma breve análise dos modelos de negócio no setor de carne no Brasil.

O modelo de crescimento de um empreendimento de acordo com a literatura vigente pode ser seguido por quatro caminhos:

1- Novas unidades. Demanda grandes investimentos e disposição semelhante desprendida na criação do primeiro empreendimento.

2- Sistema de Franquias. É um bom modelo de negócio que pode gerar escalabilidade ao empreendimento, mas demanda uma bom sistema de consultoria auxiliando os franqueados.

3- Diversificação. O velho ditado “não deposite todos os ovos debaixo de uma única galinha” faz muito sentido no mundo dos negócios. Diversificar produtos e canais de distribuição blinda o seu negócios e aumenta força de receita.

4- Aquisições. Nos últimos anos esta forma de crescimento tem ganhado muito prestígio devido ao baixo risco e ao alto retorno em curto tempo. Para os executivos que trabalham pensando simplesmente em números fazer fusões, comprar concorrentes ou assumir unidades se tornou prático na obtenção de rápidos resultados.

Pois bem, pode se dizer que as grandes empresas frigoríficas do Brasil passaram por três fases. A primeira é a fase do pioneirismo desde Barretos quando a ideia de trabalhar a carne do gado mecanicamente automatizando os abatedouros. No começo da República havia uma demanda muito grande por banha de porco o principal ingrediente da cozinha ocidental. Naquele tempo a alimentação era vista como algo completo em si, ou seja, não se pensava em nutrientes, mas no alimento como a cenoura, o bife e o frango. Hoje pensamos em proteínas e vitaminas contidos nos enlatados, extratos e nos alimentos processados que compramos nos supermercados. Porém na fase pioneira não se vendia marcas, mas abastecimento. Ninguém perguntava se “a carne era friboi”, no entanto importava se tinha carne nos armazéns. Os imigrantes italianos vendendo no mercado paulista e carioca seus produtos e o José Batista Sobrinho abastecendo Brasília nos traz a imagem de um modelo de negócio construído sobre uma rede de distribuição.

Forma de distribuição das empresas catarinenses

Basicamente os principais elementos para esse formidável desenvolvimento da Seara Alimentos, Sadia e Perdigão se valeu do conhecimento técnicos dos imigrantes, a boa terra produtiva no oeste de Santa Catarina e claro a presença da ferrovia. A ferrovia que liga São Paulo a Rio Grande do Sul passando pelo oeste catarinense foi um elemento fundamental para o desenvolvimento do mercado de carne naquela região. As cooperativas alcançava os diversos produtores que encaminhava suas safras aos diversos secos e molhados, aos moinhos e aos abatedouros. Em seguida estes comerciantes escoava esta produção via férrea para São Paulo e de lá através de armadores e empresa de exportação mandava seus produtos ao mundo.

Forma de distribuição de José Batista Sobrinho

O foco era abastecer Brasília neste tempo “Zé Mineiro” como era conhecido José Sobrinho juntamente com seu irmão desenvolveram um grande trabalho trabalhando com bons produtos entregando nos canteiros de obra. Saber negociar era o segredo do negócio.

Segunda fase de desenvolvimento do negócio da carne

Nesta fase se destaca a internacionalização dos produtos a ponto de disputar com grandes marcas mundo a fora. Neste momento estas empresas se valeram de aquisições de outras empresas adquirindo know-how em diversos setores alimentício. Alinharam diversificação com aquisições para gerarem força de faturamento até ao ponto de se tornarem referências nacionais e mundial. A Seara mudou de mão pelo menos quatro vezes até ser comprada pela JBS. A Sadia brincou com fogo ao aplicar seus recursos no mercado derivativo chegando a falir em 2008, mas foi salva pelo BNDES e em seguida fundiu com a Perdigão nascendo a Brasil Foods. Neste meio tempo essas empresas criaram bancos, investiram na política, fizeram concorrências de toda a natureza no mercado alimentícios, foram alvos de perseguição de movimentos sociais rurais e urbanos. Invadiram o mercado americano, europeu, asiático e do oriente médio instalando fábricas sempre focado na redução de custo e eficiência na distribuição. Este período pode ser delimitado da década de 80 até meados de 2008.

A terceira e última fase da indústria de alimentos processados

O marco dessa fase é a crise global que assolou o mundo e ainda sentimos seus efeitos em 2008. O real se desvalorizou muito e as nossas multinacionais que exportam a nossa matéria-prima viu pesar em seus orçamentos o custo de capital. Pediram socorro ao governo, aumentaram os preços internamente, reduziram custos e o resultado foi uma deterioração de seu parque industrial e um aumento gigantesco de seu endividamento. A JBS em 2016 teve um lucro líquido de R$ 700 milhões, mas diante de um endividamento de longo prazo de R$ 38 bilhões, levará mais de 40 anos para pagar suas dívidas. A BRF tem uma dívida de longo prazo de R$ 15 bilhões, no ano passado sofreu prejuízo em seu faturamento ficando negativa R$ 367 milhões. As duas empresas juntas possuem um patrimônio líquido de R$ 37 bilhões, porém juntas possuem uma dívida de R$ 75 bilhões. A realidade bate a porta porque nem o governo brasileiro pode salvá-las desta vez, pois o mesmo está ultra e mega endividado.

Falando de Gestão

Neste tópico é importante destacar que ambas empresas possui um foco de gestão bem diferentes. A BRF se deteve muito tempo na integração da Sadia e Perdigão o que fez a Brasil Foods se dedicar muito ao mercado interno brasileiro. Isso explica seu baixo faturamento frente a sua concorrente. Já a JBS se valeu de suas aquisições para brigar mundo a fora o que lhe trouxe uma poderosa receita e se tornou bem vista mundialmente. Diríamos que são concorrentes, mas possuem inimigos bem diferentes, querendo ou não elas representam o capitalismo brasileiro. Se é que podemos chamar de capitalismo.

Conclusão

O pioneirismo foi o ponta-pé inicial nessas organizações, os fundadores tinham visão plena daquilo que queriam para suas empresas. Mas a nova geração que assumiu se deteve na sedução da ganância que fizeram deles cegos para com a realidade comercial que o cercara. Nenhum modelo de negócio é a prova de ganância ou no pior dos casos ostentação e exibição. JBS e BRF são ícones brasileiro de pioneirismo, mas infelizmente tão são exemplos a não ser seguido para uma voraz expansão comercial.

 

Daniel Júnior

Editor do Blog Dezeroatudo

 

 

 

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