7 lições aprendidas com o ataque de Lemann da 3G a Unilever

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“Tudo parecia estar sob controle até que o segredo foi exposto ao mundo às 14h29 do dia 23 maio, quando o blog Alphaville, do jornal inglês Financial Times, publicou na internet a informação de que a InBev preparava uma oferta de 46 bilhões de dólares pela centenária companhia americana.” Este fato aconteceu no ano de 2008 quando a 3G de Jorge Paulo Lemann deu um verdadeiro bote para adquirir a Anheuser-Busch (AB) dona da Budweiser, isso quem nos conta é Cristiane Correa em seu livro Sonho Grande. Na sexta-feira dia 17 de fevereiro de 2017 aconteceu uma espécie de Déjà vu, o mesmo blog deu um furo anunciando que a Unilever rejeitou uma proposta de 143 bilhões de dólares da Kraft Heinz uma das controladas da 3G Capital. As sete lições que se seguem serão uma espécie de guia para entender como Lemann, Telles e Sicupira em parceria com Warren Buffett estão em evidência no noticiário empresarial pelo mundo a fora.

Jorge Paulo Lemann formou-se em economia na Universidade Harvard e em seguida se enveredou no mercado financeiro brasileiro. Foi contratado pela Deltec em 1946, para vender ações no mercado Latino-americano, destaca Cristiane em seu livro. Mais tarde, Lemann comprou uma corretora chamada Garantia junto com outros parceiros, adotou um modelo de gestão semelhante do Goldman Sachs baseado em remuneração variável. Este modelo de gestão atraiu diversas mentes capacitadas para sua empresa, muitas delas ainda permanecem com ele como Marcel Telles, seu parceiro de negócios na 3G. Em 1981 o Garantia já possuía uma fatia das Lojas Americanas que o possibilitava ter um assento no conselho administrativo da empresa, Beto Sicupira é quem frequentava as reuniões fazendo anotações e estudando a companhia. Segundo Cristiane “no Garantia, Jorge Paulo sempre foi o estrategista; Marcel, o chefe da mesa, e Beto, o homem dos novos negócios” para Warren Buffett estes três brasileiros tem uma carreira longeva porque eles escaparam das batalhas  de egos. O Brasil assustou quando no dia 29 de março de 2000 o CADE aprovou a criação da Ambev, fusão entre Brahma e Antártica as duas maiores cervejarias do país. Mas não foi novidade para quem ouviu em 1989 Jorge Lemann falar “pessoal, comprei a Brahma” no valor de 60 milhões de dólares, porque Lemann não dá um bote sem tem uma meta clara, ser o melhor do setor. Em março de 2004 por meio de uma troca de ações a Belga Interbrew e Ambev criaram a InBev uma verdadeira engenharia financeira e uma complexa governança corporativa como nunca feita envolvendo uma empresa brasileira com uma estrangeira.

Em 2008 em pleno estouro da crise mundial o mundo é pego de surpresa com a notícia em destaque no começo deste texto. O fato era que Lemann e seus sócios já haviam estruturado este ataque desde 1989 quando compraram a Brahma, a fusão com a Interbrew em 2004 e a parceira com a Anheuser-Busch (AB) em 2006 era para conhecer a vítima por dentro. Mas em 18 de novembro de 2008 o trio Lemman, Telles e Sicupira compraram a AB por 52 bilhões de dólares se tornando os maiores cervejeiros do mundo numa empreita de quase 20 anos. Na verdade após o nascimento da InBev o trio criou uma empresa nos Estados Unidos chamada 3G Capital cujo modelo de negócio se baseava em partnership. Este fundo de investimento se concentraria em pouquíssimas tacadas com o objetivo de aproximar das companhias americanas. Foi por meio desse fundo que Lemann comprou o Burger King junto com outros investidores em 2010 por 4 bilhões de dólares.

Diante desse breve histórico de Jorge Paulo Lemann podemos agora ver as sete principais lições que podemos aprender com o ataque da Heinz a Unilever uma gigante do consumo em massa. Vamos a elas:

1- As crises políticas sempre proporciona uma porta de entrada;

No mundo dos negócios atacar corporações quando estão em plena ascensão é um grande risco, porque você poderá desgastar a sua imagem por causa de um bote malsucedido. O BREXIT num primeiro momento provocou uma desvalorização da moeda inglesa deixam suas empresas descoberta e com um caixa relativamente frágil e como a sede da Unilever é em Londres a sua estrutura financeira foi muito afetada.

2- Todo o modelo de negócio possuí um ponto sensível;

Em torno de quase 60 porcento da receita da Unilever vem de vendas nos países emergentes o que a coloca dependente destes para um crescimento sustentável. Tirando como amostra o Brasil, mas poderíamos citar Índia, Africa do Sul, Argentina e por aí vai, estes países tem passado por turbulências na esfera econômica provocando crises sociais. Caminhe pelos supermercados brasileiros que as gandolas irão lhe mostrar como a Unilever começou a sofrer ataques de empresas locais tanto nos cosméticos quanto no gênero alimentício.

3- Todo o grande salto depende da sua altura;

Quando tocava o Garantia não foi imediatamente comprar a Budweiser, mas comprou a Brahma uma empresa regional aqui no Brasil. Agora na tentativa de comprar a Unilever se uniu anteriormente com Warren Buffett, provocou a fusão entre Heinz e Kraft para aí ter uma bala na agulha. Sem contar que sua 3G Capital já está no jogo de xadrez a anos para executar essa jogada.

4- Cada adversário, uma nova estratégia;

Na batalha contra a Antártica ele usou a estratégia de sangrar o caixa da concorrente. Na fusão com a Interbrew ele cedeu um pedaço da Ambev. No Burger King ele implantou olheiros in loco e agora ele mexe com o brio dos investidores da Unilever oferecendo um preço bem baixo para o mercado ou pelo menos para a cabeça dos acionistas.

5- Tenha um método de trabalho;

A filosofia de gestão de Lemann se baseia na meritocracia e na redução de custos. Sua empresas são voraz contra o desperdício de dinheiro e aquele colaborador que bate metas é reconhecido. Seu estilo de cortar até o osso é visto como controverso, mas é o seu método e lhe está rendendo resultados aceitáveis. Muita as vezes os gestores tem dificuldades tomar decisões por que se prende emocionalmente a momentos e ambientes o que compromete sua visão de negócio.

6- Não permita que leiam o seu jogo;

unilever

Todos os analistas financeiros apostavam as suas fichas que a próxima jogada da 3G seria encima da Mondelez ou até mesmo da Coca-Cola, mas jamais a Unilever. Essa jogada provavelmente pegou a própria Unilever de surpresa. A surpresa provoca reações que podem desencadear fatos que seriam inimagináveis se a ação inicial fosse cuidadosamente sinalizada. No mundo dos negócios preço é tudo. O valor de mercado de uma companhia está no seu Patrimônio Líquido que no caso da Unilever terminou o ano de 2016 com 16,9 bilhões de Euro e também na sua capacidade de faturamento que no ano passado foi de 52,7 bilhões de Euro. O valor de 143 bilhões desagradou os investidores londrinos, mas seja como for a Unilever já está precificada.

7- Saiba o timing ideal para a sua jogada;

Uma nuvem de incertezas pairam no ar dos rumos da política mundial como um possível enfraquecimento da ideia de globalização, crise prolongada na UE, convulsão social no mundo árabe, efeito Donald Trump o enfraquecimento a ascensão dos países emergentes. O empresário tem pavor de incertezas e aqueles que sabem se comportar nesse ambiente sempre sobressairá. Lemann começou no malfadado mercado financeiro brasileiro dos anos 50 e de lá ele vem lidando sabe lá com que até chegar ao topo. Não falo isso com um tom pejorativo, mas todos nós que conhecemos o Brasil sabemos como esse país ter horror a quem ganha dinheiro. Saber fazer as coisas corretas aqui no Brasil não é o suficiente é preciso saber o valor do timing que num bom português seria a hora certa de fazer as coisas. Um dos cantores da época do regime militar externou da seguinte maneira ” quem sabe faz a hora e não espera acontecer”.

Estas lições podem ser adaptadas e aplicadas na nossa vida comum e ou no nosso dia-a-dia. Saber o que quer não é o suficiente é preciso saber e mais, é preciso saber o que saber. Lemann está nos ensinando como é possível um brasileiro se despontar no cenário mundial.

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